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2000
 

Revista: Escala Rural

Matéria: Projeto de Vida

 
 
 


Projeto de Vida

Você tem uma pequena fazenda próxima a um grande centro mas está desanimado com as possibilidades de produção, não quer implantar nenhun tipo de criação e acha que arrendar a terra é mais problema que solução. Com tudo isso, ainda não quer deixar o campo. Que tal entrar na área do turismo rual?

A reportagem da Escala Rural esteve num hotel-fazenda localizado na cidade de Santa Branca, a 120 quilômetros da capital do Estado de São Paulo. O Fazendão Hotel etá instalado numa propriedade de 22 alqueires, que já foi sucateada como resultado de uma dividão de herança.

Uma realidade não dá para negar: a exagerada concentração de pessoas nos grandes centros e o ritmo de vida frenético das cidades fazem do turismo a grande atividade econômica a desenvolver-se na primeira metade do próximo milênio. Aliado a isso, a busca constante de qualidade de vida faz com que as pessoas se voltem para as coisas do campo, daí a conclusão: o turismo rural tem perspectivas excelentes.

Nos países da Europa, essa modalidade de exploração do meio rural é muito forte, existe há 40 anos. Só para se ter uma idéia do nível de organização, a França possui 55 mil propriedades credenciadas na Federação Nacional de Turismo Rural. Um dado que impressiona, mas não surpreende. O fato é que eles despertaram para essa possibilidade de negócio e investiram. Logo, fizeram do turismo rual uma grande fonte de renda.

Basicamente, esta atividade tem três atrativos fundamentais: gera receita, mantém o patrimônio da propriedade e gera empregos no campo - o que, atualmente, é mais do que importante.

Todos os Estados brasileiros possuem potencial turístico, basta trabalhar o conceito com fizeram, por exemplo, em Brotas - cidade do interior do Estado de São Paulo. Lá, o prefeito, depois de tentar atrair empresas à exaustão para gerar empregos, resolveu investir no turismo. Hoje a cidade faz parte do roteiro de turismo e está no catálogo de qualquer agência da área ecológica.

O turismo rural é relativamente barato e atrai, principalmente, o cidadão urbano. Pode ser instalado em fazendas com ou sem atividade agrícola, além de pequenas propriedades com capacidade para 20 ou 30 pessoas. Numa modalidade mais simples, a pessoa pode passar apenas um dia participando da rotina do campo, andando a cavalo, pescando, ordenhando vacas, plantando hortaliças, etc.

Foi esse caminho que Fábio Sá Moreira de Oliveira, 49, tomou. Engenheiro civil, vivia envolvido com projetos em estilo rústico. Suas casas de praia, campo e fazenda seguiam o estilo colonial e ele vivia comprando demolições de antigos casarões em busca de artefatos que pudessem caracterizar seus projetos. Comprava de tudo: portas, janelas antigas, telhas, madeira, etc.

Nas andanças atrás de material de demolições, chegou até o Fanzendão de Santa Branca, uma propriedade de 22 alqueires com uma antiga casa construída em 1894; "Estava praticamente em ruínas, vinha de uma resolução de inventário. A fazenda teve uma fase esplêndida no início do século, na época do café, mas depois caiu e ficou sendo mal utilizada.

Quando cheguei aqui estava dividida em casas de colonos. Tinha cômodos improvisados com chiqueiros e galinheiros", lembra Fábio Oliveira.
Encantado com o local que possuía cahoeira, bicas e uma excelente vista das montanhas - embora a casa estivesse caindo - Fábio acabou comprando a propriedade em vez do material de demolição. " Eu era sócio de um outro hotel com meu ex-sogro e comecei a pensar nessa propriedade como um hotel-fazenda. Até para fazer uma parceria entre os dois, praia e campo. Mas aí me separei e na divisão fiquei com o fazendão. Comecei então a expandir, reformar, já são 15 anos de obras. Vamos completar 9 anos de hotel funcionando", contabiliza Oliveira.
O negócio começou pequeno. Inaugurado em 1990, meio na marra, tinha apenas 9 apartamentos: o Plano Collor antecipou as coisas. Apesar disso, deu para sentir que tinha perspectiva, que a casa tinha uma aceitação boa. Tudo foi adaptado, como na maioria dos casarões de fazenda, era um retângulo principal, com cinco quartos. "Hoje, a casa original não representa nem 30% do imóvel. É difícil avaliar porque a construção segue o mesmo padrão", explica Fábio.

 


 
 
 

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Caminos das Pedras - No início o atendimento era bem caseiro, tipo fazenda mesmo. Algo na linha "tenho uma casa e recebo as pessoas". O próprio Oliveira recebia, gerenciava, etc. Mas, comprovando que o turismo rural é um atividade em plena expansão, o negócio começou a crescer. "Minha nova esposa me ajudou muito a implantar uma mentalidade de hotel, de empresa. Nos modernizamos, melhoramos as instalações, instalamos cozinha e lavanderia industriais, e melhoramos a arrumação. Fomos criando um sistema nosso de trabalho, improvisando um pouco por esse lado da fazenda, mas já com uma mentalidade profissional", avalia.

Como era bem informal acabou causando estranheza a um ou outro hóspede mais exigente, mas isso não impediu que o Fazendão crescesse. Atualmente, uma equipe muito boa, funcional, mantém o padrão das refeições e o atendimento num nível impreensível.
No que diz respeito às transformações, as obras e intervenções foram muito grandes, principalmente pela característica montanhosa da região. "Tivemos que 'mover montanhas' literalmente", ironiza Fábio. O fato é que barrancos de até 10 metros de altura foram removidos para viabilizar o aumento das instalações.

"Empurramos o morro, pois a casa estava encostada num barranco e tivemos que mexer nele para construir. Na verdade aqui só tinha mesmo uma casa - que tem valor histórico - e a cachoeira. Ao restaurante nós fomos ajeitando", completa.

Aos poucos foram sendo implantadas atividades e melhorias, como: arborização, passeio a cavalo, animais para ordenha, lago para pesca, equipes de monitores, jogos e videogames, quadras de volei, tênis, futebol e biribol, além de piscinas. "Tivemos uma primeira fase mais heróica, em que realmente houve um ivestimento muito alto, pois a obra era muito grande, isso até começar a ter cara de hotel. Agora estamos dando continuidade ao crescimento.

Normalmente temos acrescentado dois ou três quartos por ano - estamos com 23 - e nessa média vamos no adaptando gradativamente", analisa.

Andando pelas instalações se percebe a expansão: um novo salão de jogos, um sação de convenções e mais quatro quartos estão sendo preparados.

Qualidade e seriedade - uma das poucas coisas que podem desanimar que entra nessa área é o tempo. O turismo rural requer um investimento contínuo, o que significa o retorno a longo prazo, tem que ser tipo um projeto de vida pessoal. "Não se pode esperar retorno imediato, tem que ter a conciência de que se vai terminar a vida como hoteleiro", alerta Fábio Oliveira.

Essa pode ser uma saída para propriedades pequenas, que estão sem alternativa, com dificuldades para se sustentar. "Na região de Santa Branca mesmo, a única alternativa tem sido a plantação de eucalipto, que é uma coisa destrutiva, pois a curto prazo se perde o terreno", avalia Oliveira. Como é uma região montanhosa, a criação de gado, produção de leite, por exemplo, torna-se inviável. A menos que se invista em alta tecnologia. Sem a alternativa do turismo rural, o Fazendão estaria hoje apenas na memória dos moradores da região.

Há outro detalhe para o qual o proprietário deve ficar atento. Há 15 anos haviam poucas opções de turismo dessa natureza, hoje porém a atividade está em alta, por isso é preciso muita seriedade. "Temos muita procura, principalmente de quem tem filhos. Ponderando entre ir a um hotel de praia ou de campo, o hóspede pensa: para a praia tem o trânsito caótico. Então esses hotéis com apelo do campo, próximo dos grandes centros - até uns 150 km - com estrada boa são uma boa opção", ensina Fábio. "Quem vem com filhos quer enfrentar uma viagem curta e, se possível, sem nada de terra no caminho. É engraçado, o pessoal quer chegar de carro, se possível com asfalto até aqui dentro", conta. No entanto, a partir do momento que cruzam o portão, querem fazer de tudo, menos o que fazem na cidade: pescar, andar a cavalo, tirar leite de vaca, respirar ar puro, mas tudo isso num ambiente limpo, num lugar bonito, gostoso e, ainda, ter conforto.

É necessário investir em equipamentos corretos, pessoas treinadas, bom atendimento de uma maneira geral. "Nós temos um atendimento personalizado, um jeito informal que agrada, mas com muita eficiência. Não se brinca em serviço, temos uma rotina com uma boa produção. Isso é muito importante, principalmente quando estamos completamente lotados, pois conseguimos manter o padrão de atendimento", analisa Fábio.

Uma propriedade que se propõe a oferecer turismo rural tem que ter organização, calcular, fazer uma boa projeção. Não pode haver, por exemplo, imprevistos com alimentação. Imagine acabar a comida no meio do almoço! É um erro irreparável de atendimento. Aliás, nessa área tem que haver profissionalismo, pois envolve problmas com higiene. Todos que se apresentar bem, com unhas limpas, roupas limpas, enfim, o assio é fundamental. Como hospedagem é um serviço público, acaba tendo obrigações sérias perante o código de defesa do consumidor. Nas localidades não atendidas por um empresa estadual de tratamento de água, é necessário um controle muito rigoroso da água potável, esgoto, etc.. O estrago que uma contaminação causa pode acabar com um negócio antes mesmo de ele começar.

"É necessário muito cuidado! Os problemas não estão só no espaço físico, na obra, etc.. O proprietário pode arranjar problemas somente com a prestação do serviço. Para um passeio a cavalo, a rigor, deveria ser pedido um termo de responsabilidade isentando o hotel de qualquer tipo de incoveniente, mas se fizermos isso ninguém faz o passeio. Nós avisamos, tentamos minimizar. Mas na área rural tem muito mato, pode ter cobra, insetos que picam e podem causar alergia, enfim vários fatores que podem causar problemas para o propriétario", alerta Fábio.

O turismo rural é uma alternativa concreta de negócio, mas antes de iniciar os investimentos considere bem as condições. Projete, dimensione, visite algumas propriedades e não queira começar com a mesma estrutura de quem já está há anos no mercado. Lembre-se: transformar uma propriedade leva tempo, portanto não tenha receio de crescer devagar, pelo contrário, use essa condição como uma maneira de se adaptar. E não se preocupe em contratar pessoal especializado, a melhor maneira de trabalhar vem com o tempo, o turismo rural é um aprendizado contínuo.

 

 

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